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sábado, 24 de dezembro de 2011

O saber como mercadoria de luxo


Manolo Perez*

Nota-se, nas últimas duas décadas, um crescimento pela demanda de cursos livres sobre assuntos diversos, atendendo aos desejos de pessoas de diferentes classes e perfis. Conhecer mais sobre assuntos que não foram alvo de estudo na escola ou nas universidades fez surgir grupos de professores, pesquisadores ou experts que ministram palestras, workshops ou encontros livres que versam desde a filosofia ao mundo dos esportes.
É o aprender por satisfação, uma espécie de consumo do saber que vem, inclusive, alimentando as próprias universidades com cursos cada vez mais específicos e afastados das carreiras tradicionais. Modismo ou tendência? Seja qual for a resposta, o que se nota é que a informação e o saber estão transpondo os limites das escolas e das faculdades e tomando lugar no varejo.

Faz parte da característica humana a curiosidade. Nessa dimensão, o homem realmente é um eterno aprendiz e dificilmente se contenta com pouco ou com uma situação não desafiadora a suas ações.
No passado, embora o estudo regular fosse obrigatório, as formações profissionais seguiam mais a tendência das vocações e do determinismo familiar.
Com o passar do tempo, a formação cultural e a formação acadêmica passaram a seguir índices ou modas de comportamento. Muitos se dedicaram a carreiras específicas por propaganda promissora de futuro garantido.
O status e a remuneração impostos pelo Capitalismo retiraram das profissões a vocação, colocando em seu lugar o instinto de sobrevivência.
Mas um fenômeno chama a atenção depois que os homens atingem seus ideais, eles voltam a indagar sobre aquilo que sempre quiseram saber e não gostam que outros percebam suas limitações.
Nessa nova dimensão é que o conhecimento e as informações passam a ter valor de troca. Muito se fala da diferença entre conhecer, aprender, saber e informar-se, porém, a vontade permeia todas estas situações.
Quando se vê que cursos em renomadas universidades custam verdadeiras fortunas e que muitos, hoje, se interessam por grupos de estudos, dos mais variados temas, com ou sem patrocínio de órgãos públicos ou privados, percebe-se que o saber está na “onda do dia”.
Há para estes grupos de estudo perfis diferentes de pessoas envolvidas: os que aprendem por vontade de conhecer mais ou renovar seus conhecimentos, os que aprendem por obrigação ou por manutenção de carreira, os que ensinam por paixão e vocação e os que ensinam por necessidade empregatícia. Com tantas variáveis, fica difícil separar o joio do trigo e apontar quem está estudando forçosamente ou quem o faz por vontade própria de atingir superações.
Fala-se em saber de luxo quando tratamos de conhecimento para poucos, como nos casos em que há elevado valor monetário agregado. Recentemente, tornou-se frequente muitas pessoas reunirem-se em grupos para estudar Filosofia ou Políticas Públicas, História e Geografia, Literatura e Artes em geral, orientadas por professores bem preparados e especialistas.
Esse aprendizado elitizado e oneroso é o contraponto do ensino público em nosso país. Poucos alunos pagando muito por algo muito específico e particular, mas cujo efeito vai da realização de um sonho de conhecimento à pura vaidade de ostentar conhecimento, muitas vezes desprovido de base ou referencial.
De qualquer forma, as exigências do mercado de trabalho e do mundo corporativo valorizam, cada vez mais, as pessoas com conhecimentos múltiplos e, nessa dimensão, o saber não é luxo e, sim, necessidade

*Mestre e doutor em Educação pela PUCSP