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domingo, 18 de dezembro de 2011

Por que não?

Por que não uma segunda vida? Por que não a segunda chance? Por que não se salvar um número maior de vidas através de transplantes? Por falta de educação ou conscientização das comunidades? Por falta de organização governamental ou pela longa e interminável logística dos processos de transplantes? Por desinteresse dos médicos que atuam em UTIs e Emergências? Por mitos criados com referência à mutilação de corpos e venda de órgãos após a morte? Por motivos da oposição das pessoas ainda em vida? Por preconceitos culturais ou religiosos?
No Brasil, muitas pessoas têm se beneficiado deste manifesto gesto de amor que compreende a doação de órgãos em ocasiões tensas, de muito stress e de difícil decisão, ou seja, em momentos de perda de entes queridos, geralmente, em situações traumáticas da vida - por exemplo: jovens envolvidos em acidentes de trânsito, episódios de morte encefálica decorrentes de Acidentes Vasculares Cerebrais (Derrames Cerebrais) ou ferimentos por arma de fogo.
Realmente a família que sofre com a morte tem todo o direito de refletir, de se entristecer, de decidir, de negar ou de aceitar a ideia de doação de órgãos que poderão salvar várias vidas e permitir “segunda vida a alguém”. Porém, neste momento, dependendo da conscientização familiar e de conversas previamente existentes entre seus membros, a decisão de doar poderia ser menos difícil.
Existe no País uma lista de espera com 63.000 pessoas necessitando de doação de órgãos; grande parte delas falece aguardando; mais de 30.000 aguardam por rim (metade dos pacientes em hemodiálise poderiam se beneficiar de transplante!!!), 23.000 aguardam córneas e mais de 5.000 por doação de fígado. No último ano, foram realizados somente 3.000 transplantes de rim e 668 de fígado. Portanto, como se pode evidenciar, a demanda é muito maior do que a oferta. Como se pode reverter o quadro acima descrito e proporcionar a pessoas que estão em fila de transplantes a possibilidade de realizá-los e de ter uma chance de continuar vivendo com qualidade de vida? “Doação” é a palavra mestra, a pedra fundamental.
E o tempo urge, porque para o receptor cada segundo na espera se assemelha a uma eternidade. O transplante parte da sociedade e retorna imediatamente à sociedade sob o formato de solidariedade, de amor e de vida.
Na Espanha, 35 indivíduos por milhão de habitantes são doadores, nos Estados Unidos da América, 20, e no Brasil, 10 pessoas por milhão de habitantes. A meta do Ministério da Saúde é dobrar este número em 10 anos e, para que isto ocorra, deve-se iniciar de pronto a mudança de conduta social que fará com que esta necessidade seja atendida.
É público e notório que a população tem de ser informada. E como fazê-lo? Através de educação, de conversa entre as pessoas leigas ou não, de palestras proferidas por pessoal que esteja vinculado ao setor saúde, de desmistificação em qualquer lugar ou em qualquer hora, de tornar simples a conversa difícil sobre “a morte e o morrer” – é bom lembrar que o ciclo da vida no qual estamos inseridos contempla o nascer, o viver, o crescer e o morrer – e que da utilização dos órgãos do ser que morre poder-se-á proporcionar vida a outros que ocupam lugar em longas filas de transplantes e que em qualquer momento poderão ser nossos queridos filhos ou amados pais.
No momento, somente importa a decisão familiar, não havendo legalmente possibilidade de confirmação por documento de identidade.
Os órgãos podem ser transplantados de mortos para vivos (córneas, rim, fígado, coração, pulmão, pâncreas), desde que sejam constatados, de maneira correta, critérios de morte encefálica, muito bem definidos por protocolo - ética e minuciosamente - elaborado pelo Conselho Federal de Medicina; ou através de vivos para vivos, por exemplo: medula óssea, fígado ou rim, desde que o doador lúcido e coerente concorde através de consentimento informado por escrito ao juiz. Uma vez que se obtenha o consentimento é realizada a retirada de órgãos através de procedimento cirúrgico. Os beneficiados-receptores são comunicados; o corpo do doador é entregue a família para o sepultamento e os transplantes serão realizados por equipes altamente especializadas.
A sobrevida após transplante pode ser normal ou muito próxima do normal. Outras pessoas e famílias poderão usufruir a presença viva e saudável de seus filhos, pais ou irmãos em decorrência da doação. Portanto, a sociedade deve ser sensibilizada e mobilizada; as famílias devem refletir; as pessoas devem dialogar, conversar, pensar e executar conscientemente, o ato extremo e belo resumo do amor - que se expressa por doação de órgãos. Por que não?

Médico-chefe UTI Geral ACSCRG; coordenador da Organização Procura de Órgãos - SES/RS
Por: AGORA

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