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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Outro paradigma: escutar a natureza

Leonardo Boff *

'Nos dias atuais, devemos escutar o que as nuvens negras,
as florestas das encostas, os rios que rompem barreiras,
as encostas abruptas, as rochas soltas nos advertem'

Agora que se aproximam grandes chuvas, inundações, temporais, furacões e deslizamentos de encostas, temos que reaprender a escutar a natureza. Toda nossa cultura ocidental, de vertente grega, está assentada sobre o ver.

Não é sem razão que a categoria central – ideia – (eidos em grego) significa visão. A tele-visão é sua expressão maior. Temos desenvolvido, até os últimos limites, a nossa visão. Penetramos com os telescópios de grande potência até a profundidade do universo para ver as galáxias mais distantes. Descemos às derradeiras partículas elementares e ao mistério íntimo da vida. O olhar é tudo para nós. Mas devemos tomar consciência de que este é o modo de ser do homem ocidental e não de todos.

Outras culturas, como as próximas a nós (as andinas dos quéchuas e dos aimaras e outras) estruturam-se ao redor do escutar. Logicamente, elas também veem. Mas sua singularidade é escutar as mensagens daquilo que veem.

O camponês do altiplano da Bolívia me diz:
“eu escuto a natureza, eu sei o que a montanha me diz”.

Falando com um xamã, ele me testemunha:

“eu escuto a Pachamama e sei o que ela está me comunicando”.



Tudo fala: as estrelas, o sol, a lua, as montanhas soberbas, os lagos serenos, os vales profundos, as nuvens fugidias, as florestas, os pássaros e os animais. As pessoas aprendem a escutar atentamente estas vozes. Livros não são importantes para eles porque são mudos, ao passo que a natureza está cheia de vozes. E eles se especializaram de tal forma nesta escuta que sabem, ao ver as nuvens, ao escutar os ventos, ao observar as lhamas ou os movimentos das formigas, o que vai ocorrer na natureza.

Isto me faz lembrar uma antiga tradição teológica elaborada por Santo Agostinho e sistematizada por São Boaventura na Idade Media: a revelação divina primeira é a voz da natureza, o verdadeiro livro falante de Deus. Pelo fato de termos perdido a capacidade de ouvir, Deus, por piedade, nos deu um segundo livro que é a Bíblia para que, escutando seus conteúdos, pudéssemos ouvir novamente o que a natureza nos diz.

Quando Francisco Pizarro em 1532, em Cajamarca, mediante uma cilada traiçoeira, aprisionou o chefe inca Atahualpa, ordenou ao frade dominicano Vicente Valverde que, com seu intérprete Felipillo, lhe lesse o requerimento, um texto em latim pelo qual deviam se deixar batizar e se submeter aos soberanos espanhóis, pois o Papa assim o dispusera. Caso contrário, poderiam ser escravizados por desobediência. O inca perguntou-lhe donde vinha esta autoridade. Valverde entregou-lhe o livro da Bíblia. Atahaualpa pegou-o e colocou ao ouvido. Como não tivesse escutado nada, jogou a Bíblia no chão. Foi o sinal para que Pizarro massacrasse toda a guarda real e aprisionasse o soberano inca. Como se vê, a escuta era tudo para Atahualpa. O livro da Bíblia não falava nada.
Para a cultura andina, tudo se estrutura dentro de uma teia de relações vivas, carregadas de sentido e de mensagens. Percebem o fio que tudo penetra, unifica e dá significação. Nós ocidentais vemos as árvores, mas não percebemos a floresta. As coisas estão isoladas umas das outras. São mudas. A fala é só nossa. Captamos as coisas fora do conjunto das relações. Por isso, nossa linguagem é formal e fria. Nela, temos elaborado nossas filosofias, teologias, doutrinas, ciências e dogmas. Mas este é o nosso jeito de sentir o mundo. E não é de todos os povos.

Os andinos nos ajudam a relativizar nosso pretenso “universalismo”. Podemos expressar as mensagens por outras formas relacionais e includentes e não por aquelas objetivísticas e mudas a que estamos acostumados. Eles nos desafiam a escutar as mensagens que nos vêm de todos os lados.

Nos dias atuais, devemos escutar o que as nuvens negras, as florestas das encostas, os rios que rompem barreiras, as encostas abruptas, as rochas soltas nos advertem. As ciências na natureza nos ajudam nesta escuta. Mas não é o nosso hábito cultural captar as advertências daquilo que vemos. E então nossa surdez nos faz vítimas de desastres lastimáveis.

Só dominamos a natureza obedecendo-a, quer dizer, escutando o que ela nos quer ensinar. A surdez nos dará amargas lições.


*Autor de “O Sol da Esperança: Natal, histórias, poesias e símbolos”, Editora Mar de Idéias, Rio de Janeiro, 2007.

7 comentários:

Marcelo Augusto Pires disse...

O que mais me impressiona é falta de respeito das pessoas com a natureza. A ocupação de encostas e beira de rios, tem causado muitos problemas e perdas lastimáveis de vidas.
As autoridades devem ter um plano de desocupação e controle das ocupações.

Amanda Cruz disse...

Nesses momentos o que aparece são políticos querendo aproveitar o memento de dor dos outros para aparecer. Esse é ano de eleição, vamos ver bem em quem votar.

Gustavo Brandão Correia disse...

Precisamos ajudar as pessoas que estão em situação difícil. Agora aparece gente de todo lado e se dizendo entendido de tudo para dar sua opinião. Precisamos de ação.

Ana Luiza - Vila Minalda disse...

Quero saber o que vai ser feito de agora em diante. Antes todos só falavam da enchente de 79, depois vei a de 2008 que foi pior e agora a de 2012. Vamos ter que esperar a próxima pra gente saber o que vão fazer ou que nova desculpa vão dar?

Francisco Assis disse...

Não estão respeitando as nascentes dos rios, nem suas margens e encostas.

Fernando L. Galvão disse...

Hj ouvi uma conversa na boca maldita sobre as ações que o prefeito Willian Lobo vai tomar e confesso que fiquei muito feliz. Espero que não seja promessa em ano eleitoral. Vamos aguardar.

Francisco Carlos Damiate disse...

Realmente, escutar a natureza é algo que eu não tenho feito e o escutar a natureza é também ouvir nosso interior.
Espero que em 2012, todos se lembrem de ouvir seu interior e assim escolher melhor quem vai nos representar nos próximos quatro anos. Tem muita gente boa, mas não vamos esquecer de olhar quem vai trabalhar de verdade para o nosso melhor futuro.