Receba atualizações por Email

terça-feira, 27 de março de 2012

Refletindo sobre a construção dos novos heróis brasileiros

Carlos Alexandre Michaello Marques*                                         
O Pensador, escultura de bronze do
francês Auguste Rodin

Quando nos referimos ao termo “herói”, certamente muitos desde logo recordarão aquelas personagens da nossa infância, o Homem Aranha, Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha ou algum dos fantásticos desenhos da Marvel. Já em um segundo momento, nosso pensamento infantil será afastado e nomes de grandes personalidades mitológicas podem alcançar esse status e, neste momento, são lembrados Aquiles, Hércules, Leônidas e tantos outros que mesmo com um fundo de receio de sua existência ocupam nossas mentes já adultas, mas com a mesma florescência dos pequenos.
Em uma reflexão um pouco mais detida acerca do tema, nossa memória nos leva a pessoas reais, que nos antecederam na terra, ou mesmo estavam em concomitância em algum momento de nossas vidas. E aqui lembramos de revolucionários, ícones de resistência contra opressões de todo gênero ou grandes personalidades que nos fazem ter orgulho de pertencer a humanidade ou a determinada região, país. É o caso do orgulho gaúcho que se proclama em nomes como Antônio de Sousa Neto, Bento Gonçalves da Silva, Afonso José de Almeida Corte Real e outros que nem compatriotas eram, como Giuseppe Garibaldi. Vem-nos, também, à memória pessoas que dedicaram suas vidas às grandes causas humanitárias como Francisco Cândido Xavier, nosso querido Chico Xavier, irmã Dulce, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e tantos outros da maior importância para a humanidade. Muitas pessoas até aqui, modificando um ou outro nome reconhecem a importância e o caráter de alcançarem essas personalidades o status de heróis, mesmo que sejam aqueles nossos heróis e espelho de infância.
Então, qual o motivo de todo esse resgate? Qual o sentido de debater esse assunto? A resposta é simples. O cerne da questão está justamente no processo de formação destes heróis, que antes originavam-se nos desenhos animados, nos livros de História, das aulas dos grandes mestres, ou mesmo da orientação espiritual da religião professada por cada um de nós. Esses laços eram recheados de significado, havia sentido nas escolhas, estavam arraigadas de vontade e de uma mente livre. Não esquecendo o dever em responder aos questionamentos acima, tem-se por indispensável esse debate para esclarecer à sociedade que passamos atualmente por algumas tentativas de “heroização”. O que esse termo que não existe em nosso vernáculo exatamente significa? O sentido empregado aqui é da tentativa de criar heróis pela forma da difusão de ideias, imagens, sons e pela reiteração dos modelos. O que tem de heróico ficar segregado em um imóvel para buscar um prêmio em dinheiro? O que tem de heróico ser um estereótipo daquilo que parte da sociedade pensa e foi condicionada a pensar que é importante? Ou ainda, o que tem de heróico ganhar um milhão de reais por mês para praticar um esporte? Esses questionamentos por hora podem ser respondidos com facilidade frente aos atuais valores de grande parte da sociedade brasileira, mas devemos temer o momento em que esses questionamentos tornem-se meras frases sem sentido. E certamente não está longe o tempo para que esta transformação ocorra, pois a frequência que ouvimos a palavra “herói” para identificar as mais estranhas situações a que se submetem alguns seres humanos e que em nada são edificantes para a mesma sociedade que pode ser vertida.
Esse pequeno ensaio é muito mais reflexivo do que esclarecedor, pois o colapso de um modelo valorativo pode estar em trânsito e, amanhã nossos filhos e netos nos perguntem por que dávamos tanta importância àquelas personalidades, pois os heróis podem ser aqueles que alguns veículos edificaram e, não aqueles que se dediquem em algum momento para a humanidade e seu próximo, sem a necessidade de uma contraprestação financeira vultuosa em sua grande maioria.


*Professor da Fadir/Furg

Um comentário:

Gustavo Lima disse...

Deveríamos refletir muito sobre este excelente texto do Professor.