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sábado, 5 de maio de 2012

A arte na formatação de políticas públicas


MARCELO SOARES DE ANDRADE
Ator e diretor; produtor cultural   

Sempre acreditei que a melhor maneira de se fazer política cultural é por meio de oficinas artísticas. Nas oficinas, as pessoas se envolvem diretamente com a arte, aumentam o poder de criatividade e se conhecem melhor. Por pensar assim, em 1993, foi criado o Centro Experimental de Artes da Prefeitura Municipal de Viçosa, quando eu era secretário de Cultura da cidade. 

Eram oferecidas aos alunos de escolas públicas oficinas que estimulavam o aprendizado, a inclusão e a formação humanística. O sucesso foi tanto que, em 2001, a TIM resolveu patrocinar o projeto por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, ampliando-o para todo o Estado de Minas Gerais. Hoje, cerca de 5.000 crianças e adolescentes da rede pública de ensino de 12 cidades mineiras participam anualmente das atividades desenvolvidas pelo Programa TIM ArtEducAção.

Tudo isso foi resultado de um sonho compartilhado. Criamos uma política pública de resultado e fizemos o programa acontecer por meio de parcerias com as prefeituras locais. Quando temos uma ideia, é preciso acreditar e desenvolvê-la. E para que um projeto dê certo, devem-se ter paciência, organização e profissionais competentes envolvidos. Um dos problemas da arte e da cultura no Brasil é que muitas pessoas, em vez de agir, preferem criticar e esperar pelo patrocínio. Os parceiros só surgem depois que bons resultados são gerados - empresários geralmente procuram pessoas e programas vencedores.

As oficinas do TIM ArtEducação sempre se preocuparam com a apuração da estética artística e com a reflexão para a transformação, dando importância à inovação. Por isso, neste ano, implantamos a oficina de arteducação digital. Vivemos em um mundo que nos coloca em contato com milhares de informações, mas não temos tempo de refletir sobre elas. O objetivo da nova oficina é provocar essa reflexão por meio da produção de conteúdos interpretativos para os meios digitais. Crianças e jovens vão poder expandir seus olhares artísticos através da leitura e produção de conteúdos digitais.

Um projeto artístico também deve sempre respeitar a cultura de um povo. Afinal, como diz o antropólogo brasileiro Roque de Barros Laraia, no livro "Cultura, Um Conceito Antropológico", "o modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura". Portanto, antes de introduzir novos elementos artísticos, é preciso conhecer as manifestações culturais locais já existentes.

Arte é a apuração do que vem da cultura e cultura é a vida. Juntas, elas têm o poder de humanizar a sociedade, de resgatar a autoestima e promover o exercício da cidadania. Por isso, quando se tem um projeto cultural, é preciso acreditar em seu potencial transformador e catalisador para o universo da cultura.

Publicado no Jornal OTEMPO em 05/05/2012

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