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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A questão é o diploma ou há corporativismo “na jogada”?


José Renato Santiago*

Em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) tinha derrubado a exigência do diploma para jornalistas. Algumas semanas atrás o Senado derrubou esta decisão e aprovou a proposta de exigência de diploma para o exercício do jornalismo. Agora o tema segue para apreciação da Câmara. Do ponto de vista prático, algo mudou?
Foto: Reprodução
Bem, certamente que não.Para grande parte dos profissionais que já desempenhava o papel de jornalista, nada mudou, sequer mudará. Quem possuía o diploma de jornalista, não sofreu qualquer impacto com a decisão tomada em 2009. Ao longo destes anos, sempre que necessário, ou adequado, as empresas contratantes exigiam o diploma para os profissionais que buscavam a vaga de jornalistas. Mesmo que legalmente, isto não fosse uma exigência.
A empresa oficialmente não alegava tal necessidade, mas o argumento era levado em conta. O uso do termo necessário ou adequado se deve ao fato que, para os grandes nomes dos vários segmentos existentes jamais foram exigidos tais documentos comprovatórios. Por que?
Simplesmente porque a questão levada em conta realmente é a audiência e o número de leitores que serão atraídos pelo autor, ou por seu texto, independentemente da presença de diploma ou não. Na área esportiva, por exemplo, alguns dos melhores colunistas não possuem diploma de jornalistas. Apenas para citar um exemplo, Dr. Eduardo, o Tostão, que além de médico e ex jogador, é um dos que melhor escreve sobre futebol.  Quem será louco de abrir mão dele? Ainda por cima, por causa de um diploma? Certamente ninguém.
No entanto, há outros, que embora excelentes também, jamais terão qualquer oportunidade profissional na área. Por quê? Bem, porque a questão também está associada com a preocupação pelo potencial aumento de concorrência. A verdade é que poucos são os profissionais que têm competência o suficiente, para encarar a concorrência como uma oportunidade de crescimento e evolução profissional. No jornalismo esportivo, é possível contar nos dedos aqueles que dão espaço a outras pessoas, independentemente, destas questões menores. Apenas para dar um exemplo, graças a um deles, que hoje o Brasil conhece um dos mais talentosos escritores sobre o futebol, o pernambucano Roberto Vieira, médico como Tostão, e que também é uma craque das letras.
Outro exemplo...
Recentemente estive presente em um encontro literário onde a mesa foi formada por jornalistas e autores de livro sobre futebol.
Quando um deles, não jornalista, perguntou sobre o fato de existirem no Brasil alguns casos de violência envolvendo torcidas organizadas e jornalistas, um famoso jornalista imediatamente interrompeu, com explicita indignação, e afirmou que jamais tinha ouvido falar sobre qualquer caso envolvendo tal situação.
Após minutos de silêncio, devido a grande surpresa de tal afirmação, o público presente passou a destacar não apenas um, mas dois, três, quatro, cinco... Enfim inúmeros casos de violência envolvendo jornalistas esportivos e torcidas organizadas, todos no Brasil. Um deles, aliás, um policial que testemunhou certa torcida agredir a pontapés um jornalista.O que aconteceu? O que motivou este competente jornalista a fazer isso? Apenas um exemplo de mal jornalismo?
Entendo que um pouco de tudo. Mas algo ficou notório. Houve a nítida tentativa de desqualificar uma informação que, embora verdadeira, foi tratada com chacota por não ter partido de outro jornalista.
Um mais claro exemplo de preconceito e a real razão para que o corporativismo continue a ser a grande questão que justifique a exigência do diploma para que esta atividade profissional seja desenvolvida. Por fim, cabe ressaltar que isto certamente não acontece apenas no segmento do jornalismo esportivo. Devemos combater isso...
Mas há uma outra alternativa, aceitar isso, mas o que fará com que moralmente passemos a aceitar que outras classes façam o mesmo. Já pensou termos que aceitar que os políticos, por exemplo, continuem fazendo isso? Nada de um peso e duas medidas, não é mesmo?

*Escritor e colunista

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