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sábado, 11 de agosto de 2012

Juventude Cibernética


Pe. Raphael Pinto*

Não há como negar a influência da tecnologia avançada nos lares e na sociedade; percebendo a relação dos meus sobrinhos com a tecnologia, vejo como isso interfere na compreensão de tempo, espaço e relacionamentos, que agora deixam de ser analógicos e sociais, para se tornarem simultâneos e plurais. Diante dessa realidade, me propus a fazer uma breve reflexão sobre esse tema que, para muitos, é amplo e complexo. A questão que se coloca é a nova configuração da subjetividade juvenil e as informações que agregam a sua visão de mundo, sendo completamente diferentes, por exemplo, daquelas em que muitos de nós fomos educados e que os estudiosos chamariam de analógico.

Os inúmeros aparatos tecnológicos, muitos dos quais eu desconheço como o iPad, iPod, notebook , vários sites e aplicativos: Facebook, Orkut, My Space, etc instauram uma nova realidade social: crianças e jovens preferem o anonimato ou o silêncio, evitando falar, mas enviam torpedos, e-mails, fora as fotos, que perdem muito o poder da descrição. Literalmente, a ortografia deu origem a termos e abreviaturas que só parte das “tribos” ou grupos conseguem decifrar. Nativos, pois já nasceram nessa cibercultura, crianças e jovens apresentam vantagens significativas em relação aos pais e educadores, muitos dos quais precisaram migram (aprender) para esse tipo de tecnologia.

O impacto faz-se sentir na relação em diferentes níveis, especialmente o da autoridade, pois subvertendo a lógica anterior, onde o pai e o educador eram os únicos detentores do conhecimento, a juventude, na atualidade, busca estabelecer relações mais horizontais e menos hierárquicas. Recentemente, participei de uma palestra sobre Neurociência e Educação e pensando justamente em escrever sobre essa temática, neste mês, fiquei atento à relação entre o cérebro, mente, memória, mouse e o excesso de estímulos visuais e auditivos que, num simples click, muitos jovens se expõem, provocando deficiência de atenção e concentração dispersiva, além do mau uso de imagens pessoais e postagens. Nunca se viu tanta invasão de privacidade, de dados públicos e até acessos a contas bancárias e documentos de órgãos públicos. A falta de uma legislação específica continua a dar impunidade a quem transgride a lei, já que, em muitos casos, são feitos em lan houses ou em monitores emprestados. A despeito disso, caberia uma palavra sobre a educação.

Tentemos imaginar as inúmeras transformações ocorridas no último século: informática, meios de transportes, o estilo de vida mudou completamente, mas algo parece contrastante. Se visitássemos uma sala de aula há 50 anos atrás e uma escola pública hoje, poucas coisas perceberíamos de diferente: o quadro negro, as cadeiras e aula expositiva, e aqui tem alguns dos dilemas. Já para a juventude na atualidade, os múltiplos espaços interativos permitem que sejam possíveis realizar muitas coisas, ao mesmo tempo, e com diferentes ferramentas sociais: postagem de fotos no Facebook, responder e-mails, consulta ao Google, sendo que as escolas, com os seus métodos tradicionais, estão deixando de ser um espaço atrativo.
Nesse clima de efervescência em que vive essa geração, as antigas questões sobre o sentido da vida, o futuro e a morte ainda continuam atuais. O que talvez seja diferente é a percepção e a forma de buscar responder a essas perguntas, e é justamente aqui que todos nós temos um espaço de acesso e diálogo para propor aos nossos jovens, isto é, nos ocuparmos das grandes causas que afligem a juventude hoje, mas, para isso, é preciso colocar-se a caminho. Dizia Eduardo Galeano, escritor uruguaio, “agora que encontramos as respostas, mudaram as perguntas”. Compete a nós, pais, educadores e formadores de opiniões, criar um elo entre o passado e o presente, cada um respeitando os espaços e direitos da cidadania, mas sempre com um olhar de responsabilidade, observando as áreas acessadas, horários, tempo disponível, para que não se crie uma geração de solitários, sedentários e individualistas. Todos nós precisamos estar comprometidos com essa proposta, caso contrário vamos não somente perder o “trem da história” mas também a nossa juventude, se é que se pode ainda usar esse termo no singular. Em todo caso, não há uma receita de bolo, em tempos de rápidas e profundas transformações a respostas também serão provisórias.


*Cura da Catedral de São Pedro

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